A eosinofilia é uma quantidade anormalmente alta de eosinófilos no sangue. A eosinofilia não é uma doença, mas pode ser uma resposta a uma doença. Uma quantidade elevada de eosinófilos no sangue habitualmente indica uma resposta apropriada perante a presença de células anormais, parasitas ou substâncias que causam uma reacção alérgica (alergenos). Uma vez formados os eosinófilos na medula óssea, entram na circulação sanguínea, mas permanecem ali apenas algumas horas antes de emigrarem para os tecidos do organismo. Quando uma substância estranha entra no corpo, é detectada pelo linfócitos e pelos neutrófilos, que libertam substâncias que atraem os eosinófilos para essa área. A seguir os eosinófilos libertam substâncias tóxicas que atacam os parasitas e destroem as células humanas anormais. Síndroma hipereosinofílica idiopática A síndroma hipereosinofílica idiopática é uma perturbação em que a quantidade de eosinófilos aumenta para mais de 1500 células por microlitro de sangue durante um período superior a 6 meses sem uma causa evidente. A síndroma hipereosinofílica idiopática pode aparecer em qualquer idade, mas é mais frequente nos homens com mais de 50 anos. Uma quantidade elevada de eosinófilos pode lesar o coração, os pulmões, o fígado, a pele e o sistema nervoso. Por exemplo, o coração inflama-se numa doença chamada endocardite de Löffler, que origina a formação de coágulos de sangue, insuficiência cardíaca ou mau funcionamento das válvulas do coração. Os sintomas desta síndroma dependem dos órgãos lesados. Pode haver perda de peso, febre, suores nocturnos, fadiga geral, tosse, dor no peito, inflamação, dor de estômago, erupções cutâneas, mal-estar geral, fraqueza, confusão e coma. A síndroma diagnostica-se quando se detecta o aumento persistente dos eosinófilos nas pessoas que apresentam estes sintomas. Antes de começar o tratamento, deve assegurar-se que a eosinofilia não é causada por uma infecção parasitária ou uma reacção alérgica. Sem tratamento, geralmente mais de 80 % dos doentes com esta síndroma morrem ao fim de alguns anos; com tratamento, mais de 80 % sobrevivem. A lesão cardíaca é a principal causa de morte. Algumas pessoas não precisam de tratamento e só exigem controle durante 3 a 6 meses, mas a maioria necessita de tratamento com prednisona ou hidroxiureia. Se este tratamento não for eficaz, podem usar-se outros medicamentos, combinados com um procedimento que elimina os eosinófilos do sangue (leucaferese). Síndroma de eosinofilia-mialgia A síndroma de eosinofilia-mialgia é uma perturbação pela qual a eosinofilia se combina com dor muscular, fadiga, inflamação, dor articular, tosse, falta de ar, erupções e anomalias neurológicas. Embora pouco frequente, esta síndroma apareceu nos princípios dos anos 90 em pessoas que tomavam grande quantidade de triptofano, um artigo popular nas lojas de produtos naturais e por vezes recomendado pelos médicos para facilitar o sono. Uma impureza no produto, mais que o triptofano em si, é a causa provável da síndroma. Esta síndroma pode durar entre semanas e meses depois da interrupção do triptofano e pode causar lesões neurológicas permanentes e, raramente, a morte. Não se conhece qualquer cura; em geral recomenda-se a reeducação física (fisioterapia). |
AVISO IMPORTANTE
| "As informações fornecidas são baseadas em artigos científicos publicados. Os resumos das doenças são criados por especialistas e submetidos a um processo de avaliação científica. Estes textos gerais podem não se aplicar a casos específicos, devido à grande variabilidade de expressão da doença. Algumas das informações podem parecer chocantes. É fundamental verificar se a informação fornecida é relevante ou não para um caso em concreto. "A informação no Blog Estudandoraras é atualizada regularmente. Pode acontecer que novas descobertas feitas entre atualizações não apareçam ainda no resumo da doença. A data da última atualização é sempre indicada. Os profissionais são sempre incentivados a consultar as publicações mais recentes antes de tomarem alguma decisão baseada na informação fornecida. "O Blog estudandoraras não pode ser responsabilizada pelo uso nocivo, incompleto ou errado da informação encontrada na base de dados da Orphanet. O blog estudandoraras tem como objetivo disponibilizar informação a profissionais de cuidados de saúde, doentes e seus familiares, de forma a contribuir para o melhoramento do diagnóstico, cuidados e tratamento de doenças. A informação no blog Estudandoraras não está destinada a substituir os cuidados de saúde prestados por profissionais. |
sábado, 10 de outubro de 2009
EOSINOFILIA
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Síndrome de Rotor
Síndrome de Rotor
Autossômica recessiva na qual apresenta uma hiperbilirrubinemia conjugada de natureza crônica.
nDifere da síndrome de Dubin–Johnson por apresentar alteração na captação hepática e/ou na ligação intracelular de ânions orgânicos no fígado.
nAssintomática e com excelente prognóstico.
Síndrome de Dubin–Johnson
Síndrome de Dubin–Johnson
Autossômica recessiva que causa secreção canalicular deficiente de conjugados de bilirrubina devido a ausência da proteína transportadora de glicuronídios de bilirrubina.
nCaracteriza–se por hiperbilirrubinemia moderada, não hemolítica. Além da icterícia, a maioria não apresenta outros sintomas. Nenhum tratamento é indicado para essa síndrome, uma vez que é considerada benigna.
Síndrome de Kernicterus
Síndrome de Kernicterus
Hiperbilirrubinemia não conjugada que origina disfunção neurológica e pode levar a morte.
nCausa perda auditiva, problemas de visão e retardo mental.
Síndrome de Gilbert
Síndrome de Gilbert
Mutação no gene da UGT (TA).
nManifesta -se por uma redução do clearance hepático de bilirrubina, causado por uma deficiente captação e/ou conjugação.
nTende aumentar por estresse emocional e físico, fadiga, consumo de álcool ou doença intercorrente e a diminuir por ingestão calórica.
n Apesar de uma patogenia complicada e pouco esclarecida a doença é facilmente controlada e benigna, razão pela qual não se recomenda qualquer terapêutica.
Síndrome de Crigler–Nijjar
Síndrome de Crigler–Nijjar Evolui para lesão neurológica (kernicterus), ausência da atividade da enzima que promove a conjugação da bilirrubina (B–UGT).
nManutenção da albumina plasmática, prevenção de situações hemolítica, de jejum prolongado, de infecções intercorrentes e de esforço físico excessivo.
nComo medida de intervenção imediata utiliza -se exsangueneotransfusão e plasmaférese.
nIndução do Cit P450, envolvidos na degradação oxidativa da bilirrubina, por certos agentes farmacológicos.
Tipo I: Autossômica recessiva, ausência total de bilirrubina-UGT(fatal).
Tipo II: Autossômica dominante, redução menos pronunciada nos níveis hepáticos de bilirrubina-UGT(não-fatal
SINDROME SMITH LEMLI OPITZ
Síndrome de Smith-Lemli-Opitz
INTRODUÇÃO
A síndrome de Smith-Lemli-Opitz (SLO, OMIM 270400)
é uma doença genética da biossíntese do colesterol de
transmissão autossómica recessiva caracterizada por
um padrão de dismorfias faciais minor (ptose, narinas
antevertidas, micrognatia, fenda palatina, úvula bífida),
alterações dos membros (sindactilia do segundo e terceiro
dedos dos pés, polidactilia pós-axial) e malfomações
congénitas múltiplas incluindo pseudohermafrodismo no
sexo masculino, hipolobulação pulmonar, agenesia renal,
malformações cardíacas e cerebrais bem como
atraso crescimento, hipotonia neonatal e atraso mental
(1). Estima-se que a sua incidência possa variar entre
1:22 000 (2) e 1:60 000 (3) consoante as populações.
Na origem da doença está um défice da enzima 7-
dehidrocholesterol reductase (EC 1.3.1.21) codificada
pelo gene DHCR7, localizado no cromossoma 11q13,
responsável pela conversão de 7-dehidrocolesterol em
colesterol (4,5). Este bloqueio tem consequências graves
para o desenvolvimento intra-uterino fetal, dadas as
múltiplas funções biológicas desempenhadas por este
lípido neutro.
No passado foram descritas duas formas de síndrome
de Smith-Lemli-Opitz com base no fenótipo clínico
observado: o tipo II correspondente a uma apresentação
grave e incompatível com a vida e o tipo I que inclui os
fenótipos menos graves da patologia. Contudo, as bases
bioquímicas e moleculares são as mesmas e os fenótipos
traduzem simplesmente diferentes níveis de actividade
enzimática residual (6).
Os autores apresentam um caso de diagnóstico prénatal
(DPN) de síndrome de Smith-Lemli-Opitz às 19
semanas de gravidez, numa família sem história positiva,
com base na detecção de níveis diminuídos de colesterol
no líquido amniótico (LA) e presença dos seus precursores
7-dehidrocolesterol e de 8-dehidrocolesterol bem como
a sua confirmação molecular. Os autores revêem também
o estado actual do conhecimento no que se refere
diagnóstico pré-natal de síndrome de Smith-Lemli-Opitz.
A síndrome de Smith-Lemli-Opitz (SLO) é uma síndrome polimalformativa de natureza metabólica e transmissão
autossómica recessiva, caracterizada por um padrão de dismorfias faciais minor, anomalias congénitas de vários
órgãos, atraso de crescimento e atraso mental. É causada por um defeito da enzima 7-dehidrocolesterol reductase,
responsável pelo último passo da via metabólica da síntese do colesterol. A síndrome de Smith-Lemli-Opitz
caracteriza-se por níveis diminuídos de colesterol e concentrações altas do seu precursor 7-dehidrocolesterol.
Os autores relatam o caso de uma gravidez com rastreio pré-natal integrado positivo para trissomia 21 e níveis séricos
de estriol não conjugado particularmente baixos. O cariótipo fetal revelou uma constituição cromossómica 46,XY.
Ecograficamente havia a registar uma translucência da nuca aumentada às 11 semanas de gestação e, às 18 semanas
ambiguidade genital, encurtamento dos fémures, cardiopatia lábio leporino e atraso de crescimento intra-uterino. A
suspeita bioquímica e ecográfica de síndrome de Smith-Lemli-Opitz foi confirmada pela demonstração de níveis baixos
de colesterol e níveis altos de 7-dehidrocolesterol e 8-dehidrocolesterol no líquido amniótico. Após interrupção médica
da gravidez às 20 semanas, foi realizada a análise mutacional do gene DHCR7 em DNA extraído de tecidos fetais, a
qual demonstrou homozigotia para a mutação comum IVS81G>C associada a fenótipos graves. Os autores fazem
também uma revisão da literatura respeitante ao diagnóstico pré-natal de síndrome de Smith-Lemli-Opitz.
Palavras-chave: Síndrome Smith-Lemli-Opitz, estriol, 7-dehidrocolesterol, colesterol, DHCR7, diagnóstico pré-natal,
translucência da nuca, ambiguidade sexual, IVS81G>C
ARQUIVOS DE MEDICINA Vol. 19, Nº 1-2
24
CASO CLÍNICO E MÉTODOS
Casal jovem saudável não consanguíneo com história
familiar e clínica irrelevante (gesta -1, para- 0). A primeira
ecografia efectuada às 11 semanas de gestação revelou
uma translucência da nuca (TN) aumentada (4mm). O
rastreio pré-natal integrado para síndrome de Down (7),
revelou um risco aumentado de síndrome de Down 1 em
18, a termo, trissomia 18 de 1 em 220 e um risco de
síndrome de Smith-Lemli-Opitz de 1 em 20, baseado nos
valores da translucência da nuca e dos níveis dos
seguintes marcadores: às 11 semanas e 5 dias PAPP-A
de 0.58 múltiplos da mediana (MoM) e, às 14 semanas e
5 dias, α-fetoproteína de 1.03 MoM, estriol não conjugado
(uE3) de 0.29 MoM, fracção β da gonadotrofina coriónica
humana livre (β-hCG) de 0.42 MoM e inibina-A de 1.21
MoM. Foi usado o programa Alpha (Logical Medical
Systems, Ltd) para os cálculos de risco.
Amniocentese foi efectuada às 14 semanas e 5 dias,
e a análise citogenética dos amniócitos cultivados revelou
um cariótipo normal 46,XY. A ecografia morfológica, às
18 semanas, revelou um atraso de crescimento intrauterino,
lábio leporino bilateral, ambiguidade sexual,
encurtamento dos fémures e cardiopatia. A
ecocardiografia fetal confirmou a existência de
comunicação inter-auricular/aurícula única.
A análise conjunta dos estudos efectuados e dos
resultados encontrados sugeriu como hipótese de
diagnóstico mais provável a síndrome de Smith-Lemli-
Opitz. Procedeu-se então à análise cromatográfica dos
esteróis no sobrenadante do líquido amniótico (que tinha
sido colhido para cariótipo e conservado congelado
a -20ºC). A metodologia utilizada corresponde à adaptação
de protocolos descritos na literatura (8). Este estudo
revelou a existência de níveis diminuídos colesterol (6
mmol /L; controlos normais: 9 - 23 mmol/L) bem como a
Fig. 1 - Análise dos esteróis do líquido amniótico por cromatografia de fase gasosa com espectrometria de massa em
modo de ião selectivo.A – Líquido amniótico normal; B – Líquido amniótico positivo para Síndrome Smith-Lemli-Opitz.
Esteróis identificados: 1) padrão interno – epicoprostanol; 2) colesterol; 3) 8-dehidrocolesterol; 4) 7-dehidrocolesterol.
Cardoso ML et al Diagnóstico Pré-Natal de Síndrome Smith-Lemli-Opitz
25
presença de 7-dehidrocolesterol (7,5 mmol /L; controlos
normais: <>C.
Seguidamente foi feito aconselhamento genético ao
casal, tendo-lhes sido explicado o risco de recorrência de
25%. Cerca de ano e meio depois, o casal recorreu à
consulta por nova gravidez de 17 semanas, tendo sido
oferecido diagnóstico pré-natal específico para síndrome
de Smith-Lemli-Opitz que revelou um feto não afectado.
DISCUSSÃO
O colesterol é o principal esterol dos tecidos humanos.
Este lípido neutro tem duas origens: é fornecido pela
alimentação e é sintetizado in vivo através de uma via
metabólica complexa. A maior parte do colesterol
necessário ao desenvolvimento fetal é produzido pelo
próprio feto (9,10). Assim, um défice na biossíntese do
colesterol constitui um erro hereditário do metabolismo
com expressão pré-natal, manifestando-se habitualmente
através de malformações várias que reflectem a
importância das funções que o colesterol desempenha
no organismo (11).
O diagnóstico pré-natal assenta na conjugação de
metodologias que permitam pôr em evidência a dupla
faceta desta patologia: (i) a síndrome polimalformativa e
(ii) as alterações metabólicas.
Ecografia
Na suspeição de um caso de síndrome de Smith-
Lemli-Opitz a ecografia constitui como um exame
importante, permitindo detectar alterações no
desenvolvimento fetal.
De acordo com um trabalho recente de análise
retrospectiva de 30 casos (12), as manifestações antenatais
desta patologia incluem: (i) no primeiro trimestre,
aumento da translucência da nuca em cerca de 26% dos
casos, (ii) no segundo trimestre (entre as 20 e 22 semanas)
edema da nuca (26%), malformações renais (26%),
polidactilia (10%), ambiguidade sexual (6%),
malformações cerebrais (10%), malformações cardíacas
(10%) e ACIU (20%), (iii) na ecografia de terceiro
trimestre (30 - 34 semanas) ACIU em 46% dos casos,
pelo que este constitui a manifestação ante-natal mais
frequente de síndrome de síndrome de Smith-Lemli-
Opitz identificada. Só em 6% dos casos referidos foi
possível detectar um conjunto de cinco anomalias,
configurando uma apresentação típica, que orientou
fortemente o diagnóstico e em 16% dos casos todas as
ecografias efectuadas foram consideradas normais (12).
Estes dados demonstram que o diagnóstico ecográfico é
por si só insuficiente e que por vezes as malformações
presentes são subtis, não sendo detectadas no período
pré-natal.
No caso que relatamos a associação de translucência
da nuca aumentada (no rastreio do primeiro trimestre)
com um conjunto de anomalias que incluíam ACIU,
ambiguidade sexual, lábio leporino, encurtamento dos
membros e comunicação intra-auricular constituiam
indicação para realização de amniocentese para
diagnóstico de uma eventual anomalia cromossómica.
Estriol não conjugado
O facto de a mãe ter efectuado o rastreio bioquímico,
foi também um aspecto determinante para a efectivação
deste diagnóstico: um valor baixo de estriol livre (0,29
MoM) combinado com as alterações ecográficas é
altamente sugestivo de uma alteração na
esteroidogénese. Esta associação explica-se pelo facto
de os défices na síntese do colesterol originarem
hipocolesterolemia fetal com diminuição na quantidade
de colesterol disponível para a síntese de estriol (que se
apresentará baixo), para a construção de membranas
celulares essencial num período de divisão celular intensa
e para interagir com as proteínas sonic hedgehog
moduladoras da embriogénese que se sabe serem
activadas pelo colesterol (dando por conseguinte origem
a ACIU e malformações). Pelas mesmas razões um
estriol normal poderá ser encontrado nas formas ligeiras
da síndrome (13).
De acordo com alguns autores a combinação de
rastreios bioquímicos pré-natais que incluam o
doseamento de estriol livre no sangue materno com uma
vigilância ecográfica cuidada virão no futuro ajudar no
diagnóstico de mais casos desta síndrome (12,14). A
maior dificuldade encontra-se na definição de critérios
globalmente aceites na selecção dos casos suspeitos e
que deverão ser testados para 7-dehidrocolesterol. Com
base na sua experiência há vários autores (14-16) que
sugerem que se testem para síndrome de Smith-Lemli-
Opitz as gestações em que se verifiquem simultaneamente
as três condições seguintes:
1. Marcadores séricos maternos sugestivos de risco
aumentado para trissomia 18 ou 21 (com registo de
estriol baixo).
2. Cariótipo normal.
3. Alterações ecográficas.
De acordo com este critério, o nosso caso teria sido
seleccionado para estudos complementares, permitindo
o diagnóstico.
Isoladamente, os níveis baixos de estriol livre não
constituem um bom indicador na selecção de casos para
diagnóstico pré-natal de síndrome de Smith-Lemli-Opitz
(3,13,17) pois existem outras causas mais frequentes às
quais se pode imputar essa situação, nomeadamente:
morte fetal, anencefalia, hipoplasia congénita das supraARQUIVOS
DE MEDICINA Vol. 19, Nº 1-2
26
renais e défice em sulfatase dos esteróides entre outras
(3,17).
Ensaios bioquímicos específicos
Até à descoberta do defeito metabólico responsável
pela síndrome de Smith-Lemli-Opitz, o diagnóstico prénatal
disponibilizado às famílias (com uma criança
afectada previamente diagnosticada) era efectuado por
ecografia. A partir do momento em que as bases
bioquímicas da síndrome de Smith-Lemli-Opitz foram
esclarecidas, esta situação alterou-se (4) e foram
efectuados estudos retrospectivos, para estabelecer
metodologias laboratoriais destinadas ao diagnóstico
pré-natal prospectivo de casos de risco (8,16). As mais
utilizadas consistem no doseamento dos esteróis
presentes no líquido amniótico (8,16,18,19), podendo
também efectuar-se a determinação da actividade
enzimática da 7-dehidrocolesterol reductase em
vilosidades coriónicas ou amniócitos cultivados (20),
embora seja uma abordagem mais onerosa e demorada.
É possível que no futuro teste de eleição seja de natureza
não invasiva através da identificação de esteróis
“anómalos” (derivados do 7-dehidrocolesterol) na urina
materna (21).
No caso que descrevemos, o diagnóstico pré-natal de
síndrome de Smith-Lemli-Opitz foi feito mediante a
determinação dos níveis de 7-dehidrocolesterol e
8-dehidrocolesterol no líquido amniótico por cromatografia
gasosa com espectrometria de massa em módulo de ião
selectivo por ser uma metodologia altamente sensível.
Verificou-se que o colesterol (principal esterol dos
mamíferos) estava baixo 6μmol /L e que o seu precursor
7-dehidrocolesterol apresentava uma concentração
elevada (sendo superior à do próprio colesterol -
7,5μmol /L). Estes dados favorecem a hipótese de
estarmos perante um défice enzimático severo, a qual é
reforçada pela positividade do teste efectuado sobre
líquido amniótico colhido às 14 semanas de gestação
quando a indicação mais comum é da sua execução após
as 18 semanas, para diminuição do risco de falsos
negativos por baixa concentração dos compostos
marcadores.
Estudos moleculares
Com a clonagem e localização cromossómica do
gene DHCR7 em 11q12-13 (22-24) tornou-se possível
conhecer o espectro mutacional responsável pela
síndrome de Smith-Lemli-Opitz em diferentes populações
e foram ensaiadas algumas tentativas de correlação
genótipo-fenótipo (25,26). Além disso tornou-se possível
o diagnóstico pré-natal molecular de síndrome de Smith-
Lemli-Opitz com base na identificação de mutações no
gene DHCR7 (27-30).
No nosso caso a análise mutacional só foi efectuada
após o diagnóstico bioquímico de síndrome de Smith-
Lemli-Opitz e revelou um feto homozigótico para a
mutação IVS8-1G>C, a mais frequente nos caucasianos.
Esta é uma mutação nula, conduzindo à inexistência de
enzima activa pelo que o fenótipo que lhe está associado
é extremamente grave e incompatível com a vida. Este é
o sétimo caso com homozigotia para esta mutação referido
na literatura (23,25,28) no entanto é provável que dada a
elevada mortalidade peri-natal associada a homozigotia
para mutações nulas, esta situação esteja subvalorizada.
Vários autores defendem que na autópsia de fetos
com malformações múltiplas seja incluído para além do
estudo genético a análise dos esteróis se a síndrome de
Smith-Lemli-Opitz é minimamente suspeito (6). A
investigação molecular pode também ser efectuada em
amostras de DNA extraído de produtos de abortamento
ou placentas de fetos com malformações em que a
fetopatologia equacione a hipótese de síndrome de Smith-
Lemli-Opitz e não existam produtos adequados para
análise bioquímica (31).
CONCLUSÃO
Este foi o primeiro diagnóstico pré-natal positivo para
síndrome de Smith-Lemli-Opitz, completamente
caracterizado (em termos, bioquímicos e moleculares)
em Portugal numa família sem história prévia de
abortamentos ou de fetos com malformações.
Este caso ilustra bem a ideia de que o diagnóstico prénatal
de síndrome de Smith-Lemli-Opitz deve ser
considerado, em termos prospectivos, nas gestações em
que houver registo de anomalias ecográficas e que
cursem com um estriol baixo no rastreio bioquímico
materno do segundo trimestre.
Dado que por vezes as malformações só são
detectadas tardiamente, e nalguns casos a amniocentese
pode ter sido realizada algumas semanas antes, é
necessário que se introduza de modo mais sistemático a
prática de separar, congelar e conservar cerca de 3 ml de
sobrenadante do líquido amniótico, para eventuais ensaios
bioquímicos que venham a ser necessários, tal como
ocorreu no presente caso.
Deve ser sublinhado que, face ao estado actual do
conhecimento, só conseguimos diagnosticar
prospectivamente casos de síndrome de Smith-Lemli-
Opitz com fenótipo moderado a grave. O diagnóstico prénatal
de formas ligeiras continua a só ser possível quando
existe um caso índex caracterizado. Nestas variantes
menos graves os níveis de colesterol estão muitas vezes
no limiar da normalidade, pelo que os níveis de estriol
serão normais e as malformações minor presentes podem
não ser detectadas na ecografia fetal convencional.
Cardoso ML et al Diagnóstico Pré-Natal de Síndrome Smith-Lemli-Opitz
27
Correspondência:
Dr.ª Maria Luís Cardoso
Unidade de Biologia Clínica
Instituto de Genática Mádica Jacinto Magalhães
Praça Pedro Nunes, 88
4099-028 Porto
e-mail: mluiscardoso@gm.min-saude.pt
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in the delta 7-sterol reductase gene and genotype-phenotype
correlation in 84 patients with Smith-Lemli-Opitz syndrome.
Am J Hum Genet 2000;66:402-12
26 - Goldenberg A, Chevy F, Bernard C, Wolf C, Cormier-Daire
V. Circonstances cliniques du diagnostique du syndrome de
Smith-Lemli-Opitz et tentatives de corrélation phénotypegenótype:
à propos de 45 casirconstances cliniques du
diagnostique du syndrome de Smith-Lemli-Opitz et tentatives
de corr 84 patients with Smith-Lemli-Opit. Arch Pediatr
2003;10:4-10
27 - Bzdúch V, Kozák L, Franvová H, Behúlová D. Prenatal
Diagnosis of Smith-Lemli-Opitz syndrome by Mutation Analysis.
Am J Med Genet 2000;95:85
28 - Nowaczyk MJM, Farrell SA, Sirkin WL, Velsher L, Krakowiak
PA, Waye JS, Porter FD. Smith-Lemli-Opitz (RHS) Syndrome:
Holoprosencephaly and Homozygous IVS8-1G_C
Genotype Am J Med Genet 2001;103:75-80
29 - Nowaczyk MJM, Garcia DM, Eng B, Waye J. Rapid
Molecular Prenatal Diagnosis of Smith-Lemli-Opitz Syndrome.
Am J Med Genet 2001;102:287-388
30 - Löffler J, Utermann G, Witsch-Baumgartner M. Molecular
prenatal diagnosis of Smith-Lemli-Opitz syndrome is reliable
and efficient. Prenat Diagn 2002;22:827-30
31 - Löffler J, Trojovsky A, Casati B, Kroisel PM, Utermann G.
Homozygosity for the W151X Stop Mutation in the Δ7-sterol
Reductase Gene (DHCR7) Causing a Lethal Form of Smith-
Lemli-Opitz syndrome: Retrospective Molecular Diagnosis.
Am J Med Genet 2000;95:174-7
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
HISTIOCITOSE
Histiocitose
Informações general Sintomas Tratamento Prevenção Figuras
Nomes alternativos:
granuloma eosinofílico, doença de Hand-Schuller-Christian, histiocitose X, histiocitose das células de Langerhans, doença de Letterer-Siwe, reticuloendoteliose não lipídica, histiocitose X pulmonar, granulomatose pulmonar das células de Langerhans
Definição:
Nome genérico que inclui qualquer uma das 3 possibilidades relacionadas às síndromes caracterizadas por um aumento no número de histiócitos no sangue, e que possuem uma causa desconhecida.
Causas, incidência e fatores de risco:
A histiocitose pulmonar é caracterizada pela inflamação dos bronquíolos e dos pequenos vasos sangüíneos dos pulmões. Esse tipo de inflamação leva a uma rigidez (fibrose) e à destruição das paredes dos alvéolos. A causa é desconhecida.
As pessoas na faixa dos 30 a 40 anos de idade são afetadas com mais freqüência. O consumo de cigarros é um fator de risco para a histiocitose pulmonar. Essa doença apresenta com muita freqüência um quadro de pneumotórax espontâneo. A incidência da histiocitose é de cerca de 1 em cada 10.000 pessoas.
A histiocitose também pode se manifestar na infância. Em crianças, a histiocitose compromete tipicamente os ossos (80%) e pode se manifestar em uma ou em várias partes do corpo, sendo que o crânio é muito freqüentemente envolvido. Os tumores apresentam um aspecto de tecido puncionado quando vistos através do raio X do osso; além disso, os tumores nos ossos que suportam mais peso, como a coluna ou as pernas, podem sofrer uma fratura de maneira espontânea. O comprometimento sistêmico pode causar erupções, problemas pulmonares, alargamento do baço e do fígado, anemia e morte.
Crianças com idade superior a cinco anos têm freqüentemente apenas envolvimento ósseo. No entanto, aquelas que sobrevivem por longos períodos geralmente continuam a ter problemas. Crianças menores, principalmente os bebês, apresentam maiores possibilidades de apresentar um comprometimento sistêmico com resultados fatais
HISTIOCITOSE X (SÍNDROME DE HAND-SCHULLER-CHRISTIAN)
– RELATO DE CASO*
José Olimar Carneiro Filho1, Marta Santos Leite2, José Moacyr Andrade Neto3
Os autores relatam o caso de uma criança do sexo feminino, quatro anos de idade, que apresentava cefaléia,
irritabilidade, otorréia e exoftalmia unilateral. No estudo tomográfico e na radiologia convencional encontraram-
se grandes áreas líticas no crânio e na sua base. O restante do esqueleto não evidenciou anormalidades.
O diagnóstico de histiocitose X (síndrome de Hand-Schuller-Christian) foi confirmado pelo mielograma.
Este estudo mostra achados radiológicos e citológicos, além de apresentar uma revisão da literatura
sobre o caso.
Unitermos: Histiocitose. Histiocitose X. Hand-Schuller-Christian. Crânio.
Histiocytosis X (Hand-Schuller-Christian disease) – a case report.
The authors report a case of a 4-year-old girl with headache, irritability, otorrhea, and unilateral exophthalmus.
Computed tomography and plain films showed large lytic areas in the vault and base of the skull. No
other bones were involved. The diagnosis of histiocytosis X (Hand-Schuller-Christian disease) was confirmed
by bone marrow biopsy. This paper presents the cytological and radiological findings of this patient
as well as a review of the literature.
Key words: Histiocytosis. Histiocytosis X. Hand-Schuller-Christian. Skull.
Resumo
Abstract
* Trabalho realizado no Centro de Diagnóstico por Imagem
do Instituto Dr. José Frota (IJF) e na Clínica Radiológica
Beroaldo Jurema, Fortaleza, CE.
1. Médico Radiologista do Hospital Geral de Fortaleza, do
IJF e da Clínica Beroaldo Jurema, Membro Titular do Colégio
Brasileiro de Radiologia.
2. Médica Radiologista do Hospital Geral de Fortaleza e
da Clínica Beroaldo Jurema.
3. Médico Residente de Clínica Médica do Hospital Universitário
Lauro Wanderley, João Pessoa, PB.
Endereço para correspondência: Dr. José Olimar Carneiro
Filho. Rua Pereira de Miranda, 1110, apto. 301. Fortaleza,
CE, 60160-040. E-mail: olimar_carneiro@hotmail.com
Recebido para publicação em 18/5/2001. Aceito, após revisão,
em 10/9/2001.
INTRODUÇÃO
A histiocitose X é um distúrbio do sistema
reticuloendotelial, caracterizado pela
proliferação de macrófagos de aspecto normal,
com ou sem reação inflamatória associada
de eosinófilos, neutrófilos e células
mononucleares envolvendo o tegumento,
o osso e as vísceras. Sua etiologia é desconhecida.
As três síndromes clínicas conhecidas
– granuloma eosinófilo do osso, síndrome
de Hand-Schuller-Christian e síndrome
de Letterer-Siwe – compartilham
uma patologia semelhante.
A gravidade varia desde uma forma
benigna, em pacientes com lesões ósseas
solitárias ou multifocais, até deterioração
progressiva e morte em lactentes com comprometimento
visceral. A doença não costuma
ter característica familiar. O tecido
afetado apresenta hiperplasia retículo-endotelial
com infiltração disseminada por
células mononucleares bizarras e células
plasmáticas(1–3).
A síndrome de Hand-Schuller-Christian
é observada com mais freqüência em
crianças e jovens. A tríade clássica de defeitos
osteolíticos nos ossos membranosos,
exoftalmia e diabete insípido só ocorre
numa pequena porcentagem de casos, embora
a sua presença seja diagnóstica. A
doença não costuma ser fatal, mas é crônica
e, algumas vezes, progressiva.
RELATO DO CASO
Paciente do sexo feminino, quatro anos
de idade, branca, natural e residente em
Fortaleza, CE. Sua mãe relatou que a criança
vinha apresentando gradativa deformidade
facial e exoftalmia, ao longo de aproximadamente
dois anos, associada a episódios
de cefaléia e irritabilidade. Nas duas
últimas semanas a paciente passou a apresentar
otorréia unilateral, associada a otalgia
e hipoacusia.
O estudo radiológico convencional do
crânio evidenciou extensas áreas líticas
com bordas definidas na região parietal
direita, fronto-têmporo-parietal esquerda
com erosão da pirâmide petrosa e envolvimento
occipital homolateral (Figura 1). O
estudo radiológico do restante do esqueleto
não evidenciou anormalidades.
No estudo tomográfico do crânio observaram-
se lesões osteolíticas com coeficientes
de atenuação de partes moles, apresentando
impregnação do contraste, comprometendo
a calota craniana em regiões frontal,
temporal e occipital à esquerda e fronto-
parietal alta à direita (Figuras 2, 3 e 4 ).
Notou-se também envolvimento da parede
lateral e superior da órbita esquerda, determinando
deslocamento do globo ocular e
músculo reto-lateral medial e inferiormente
(Figura 3). Associado, observou-se acentuado
espessamento meníngeo adjacente às
lesões osteolíticas (Figura 5).
Houve destruição da pirâmide petrosa
à esquerda e da ponta do rochedo à direita
(Figura 6). Extensas lesões com características
semelhantes comprometiam a base do
crânio, com erosões ósseas no clívus, na
sela turca e no forame magno com extensão
ao canal vertebral (Figura 7). O parênquima
cerebral apresentava valores de atenuação
normais.
A partir dos achados radiográficos e
tomográficos, foi sugerido o diagnóstico de
histiocitose X (síndrome de Hand-Schuller-
Christian). O mielograma, realizado por
punção da crista ilíaca, revelou resistência
óssea normal, normocelularidade, série eritróide
(5%) hipoplasiada, série mielóide
Histiocitose X (síndrome de Hand-Schuller-Christian) – relato de caso
110 Radiol Bras 2002;35(2):109–112
(79%) hipoplasiada com todos os elementos
representados, relação M:E = 15,8/1,
série megacariocítica normoplasiada, linfócitos
(16%), sendo estas alterações degenerativas
dos histiócitos compatíveis com
histiocitose (Figura 8).
O estudo ecográfico do abdome para
pesquisa de lesões granulomatosas em vísceras
compactas (fígado, baço) ou outras
alterações relativas à histiocitose X não
revelou anormalidades.
DISCUSSÃO
Desconhece-se a real incidência da histiocitose
X, mas é provavelmente superior
a 1/100.000 por ano em crianças com menos
de um ano de idade, ou de 0,2/100.000
nos indivíduos com menos de 15 anos. Os
dados utilizados para a estimativa não incluíram
as crianças com granuloma eosinófilo
solitário ou disseminado, nem as com
síndrome de Hand-Schuller-Christian(4).
Não se sabe ao certo a causa da histiocitose
X. Apesar de a histiocitose X ser
considerada como distúrbio não hereditário,
os indivíduos do sexo masculino são
afetados duas vezes mais do que os do sexo
feminino.
Em geral, as manifestações clínicas aparecem
na primeira década e apresentam
incidência máxima no grupo etário entre
dois e seis anos de idade. Como a histiocitose
X pode afetar quase todos os órgãos,
A B C
Figura 1. Radiografias do crânio em póstero-anterior (A) e perfil (B) evidenciando extensas lesões líticas na região fronto-têmporo-parietal esquerda. Em C,
incidência de Towne, observam-se lesões líticas na pirâmide petrosa e no osso occipital à esquerda, e erosão da ponta do rochedo contralateral.
Figura 2. Corte tomográfico evidenciando lesões
osteolíticas com impregnação do contraste, envolvendo
regiões frontal e temporal à esquerda e
occipital bilateral.
Figura 3. Corte tomográfico mostrando comprometimento
da parede lateral da órbita esquerda e
de estruturas intra-orbitárias.
Figura 4. Lesão osteolítica em situação frontoparietal
alta à direita.
Carneiro Filho JO et al.
Radiol Bras 2002;35(2):109–112 111
os achados clínicos são extremamente variáveis.
Numa série de 39 pacientes de 16
anos de idade ou menos, as manifestações
radiológicas iniciais incluíram lesões ósseas
(n = 38) predominando no crânio (n =
14), fêmur (n = 9), escápula (n = 6) e mandíbula
(n = 4)(5–7).
A otite média, que é muitas vezes bilateral,
costuma resultar diretamente da invasão
das mastóides e porções pétreas dos
ossos temporais. A linfadenopatia pode
predominar em certas ocasiões. A tríade
clássica de exoftalmia, diabete insípido e
lesões esqueléticas ocorre raramente sem
outras manifestações clínicas, embora tenda
a aparecer entre dois e quatro anos de
idade. A exoftalmia, que pode ser unilateral
ou bilateral, pode produzir distúrbios
visuais e, com freqüência, está associada a
lesões esqueléticas destrutivas da órbita. As
lesões ósseas podem ou não produzir sintomas,
dependendo do local de comprometimento
do osso. Pode ocorrer colapso de
uma ou mais vértebras. As lesões do crânio,
que podem produzir áreas locais de
intumescimento, constituem o local mais
comum de comprometimento ósseo na histiocitose
X.
O comprometimento pulmonar é observado
em cerca de 25% dos casos. Todavia,
a angústia respiratória e o pneumotórax são
manifestações raras, que estão mais freqüentemente
associadas a outras manifestações
sistêmicas da doença(8).
As conseqüências a longo prazo da histiocitose
X erradicada ou cicatrizada incluem
insuficiência pulmonar e cor pulmonale,
devido à fibrose pulmonar ou hipertensão
porta causada pela fibrose hepática.
O diabete insípido pode representar também
uma seqüela tardia, mas, em geral,
ocorre dentro de 18 meses após o início do
comprometimento ósseo. Outras manifestações
do sistema nervoso central associadas
à histiocitose X incluem: crises convulsivas,
pressão intracraniana aumentada,
déficits neurológicos focais, retardamento
mental, perda da audição, tremor intencional
e atrofia ótica(9). O atraso de crescimento
que tem sido observado em um terço
dos pacientes(5) encontra-se muitas vezes
associado a um atraso da idade óssea,
demora no fechamento das epífises e hipogonadismo
com ausência de desenvolvimento
sexual, indicando comprometimento
do hipotálamo ou da hipófise(10).
O comprometimento do esqueleto pode
manifestar-se sob a forma de áreas circunscritas
solitárias ou múltiplas de destruição
osteolítica no interior do osso. Estas áreas
de destruição osteolítica podem aparecer
rapidamente, e se houver múltiplas lesões
elas podem estar em vários estágios de cicatrização.
As cintilografias ósseas com
Figura 5. Corte tomográfico mostrando espessamento
meníngeo com impregnação do contraste,
adjacente às lesões osteolíticas.
Figura 6. Destruição da pirâmide petrosa à esquerda
e da ponta do rochedo contralateral.
Figura 7. Extensas lesões osteolíticas envolvendo
estruturas da base craniana.
Figura 8. Mielograma evidenciando alterações degenerativas dos histiócitos compatíveis com histiocitose.
Histiocitose X (síndrome de Hand-Schuller-Christian) – relato de caso
112 Radiol Bras 2002;35(2):109–112
tecnécio podem ser positivas nas lesões
com atividade osteoblástica. O crânio é o
local mais freqüente de comprometimento
ósseo. As lesões aparecem como áreas de
destruição medular e cortical, bem como a
nova formação de osso periosteal é comum.
Quando a mandíbula está afetada, a destruição
da lâmina dura do alvéolo e do osso alveolar
de sustentação dá, com freqüência,
a ilusão de que os dentes estão flutuando
no ar. Se a base do crânio estiver afetada, a
destruição costuma ocorrer nas porções
mastóides e petrosas do osso temporal. Em
geral, o comprometimento dos corpos vertebrais
começa como uma área puramente
osteolítica, que progride para o colapso do
corpo afetado, com disco uniformemente
delgado e denso (vértebra plana).
O colapso pode ser assimétrico, com
aspecto de cunha anterior, e costuma ser
observado em algum estágio do processo.
Um dos aspectos importantes para diferenciar
estas lesões das infecções dos corpos
vertebrais consiste na preservação da altura
do espaço intervertebral(6).
O índice de sobrevida geral das crianças
com histiocitose X é de 70%(9,11). Vários
fatores foram considerados importantes
indicadores para o prognóstico: 1) idade
do paciente no início da doença; 2) extensão
da doença clínica, determinada pelo
exame físico, avaliação laboratorial e radiológica;
3) local específico de comprometimento
orgânico; 4) probabilidade de
uma resposta satisfatória à terapia, baseada
na retenção da função do órgão afetado,
bem como no quadro patalógico específico
do órgão comprometido na biópsia.
REFERÊNCIAS
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fatal x-linked recessive reticuloendothelial syndrome
with hyperglobulinemia. X-linked recessive
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3. Miller DR. Familial reticuloendotheliosis: concurrence
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5. Alvioli LV, Lasersohn JT, Lopresti JM. Histiocytosis
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literature on eosinophilic granuloma of bone,
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9. Lucaya J. Histiocytosis X. Am J Dis Child 1971;
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10. Avery ME, McAfee JC, Guild HG. The course
and prognosis of reticuloendotheliosis: a study
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11. Lahey ME. Histiocytosis X: an analysis of prognostic
factors. J Pediatr 1975;87:184–92.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
A síndrome de Treacher Collins
A síndrome de Treacher Collins (também conhecida como disostose mandibulofacial ou Síndrome Franceschetti-Zwahlen-Klein) é uma doença genética caracterizada por deformidades crânio-faciais. É uma malformação congênita que envolve o primeiro e segundo arcos branquiais. É uma doença rara, com uma incidência de 1:40000 a 1:70000 nascidos vivos.
[editar]Genética
A transmissão da doença é autossômica dominante de expessividade variável. Mutações no gene TCOF1 (mapeado no cromossomo 5q) são responsáveis pela síndrome. Há 26 éxons, e verifica-se mutações nos éxons 10,15,16,23 e 24 em 50% dos casos.
[editar]Manifestações clínicas
Inclinação antimongolóide das fissuras palpebrais associadas ou não a colobomas da pálpebra inferior; hipoplasia malar; micrognatia; palato fendido; macrostomia; microtia com possível surdez; malformação das orelhas.
[editar]Tratamento
Os pacientes necessitam de acompanhamento de cirurgiões crânio-faciais, oftalmologistas, fonoaudiólogos, cirurgiões dentistas e otorrinolaringologistas.
Síndrome de Treacher Collins ou Síndrome de
Franceschetti-Klein ou Disostose Mandíbulo-Facial
Treacher Collins Syndrome or Franceschetti-Klein
Syndrome or Mandibulofacial Dysostosis
Instituto da Criança "Prof. Pedro de Alcantara"
do Hospital das Clínicas da Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo.
Unidade de Genética Clínica.
1. Professor Associado do Departamento de
Ortopedia e Traumatologia da Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo.
Claudette H. Gonzalez1
Resumo
O autor discute as manifestações
clínicas, o diagnóstico e o tratamento
da síndrome de Treacher Collins.
Em 1900 um oftalmologista britânico,
o Dr. E. Treacher Collins 8,
descreveu um paciente com anormalidade
das pálpebras associadas à
hipoplasia dos ossos malares. Posteriormente,
Franceschetti & Klein3,
em ampla revisão da doença, passam
a denominá-la de disostose mandíbulo-
facial.
A literatura européia utiliza preferencialmente
o epônimo síndrome
de Franceschetti-Klein. Na literatura
científica anglo-saxã a condição é
conhecida como síndrome de Treacher
Collins, denominação que adotamos.
Manifestações clínicas2'4'5' (Figuras
l, 2 e 3)
A síndrome pode ser reconhecida
já ao nascimento, dada a aparência
facial característica do afetado.
Fissuras palpebrais antimongolóides,
ossos malares achatados, orelhas
deformadas e queixo pequeno
constituem uma figura clínica
que uma vez visualizada se torna
inesquecível.
Olhos. Ainda que a visão geralmente
seja normal, há anomalias
oculares importantes. As fissuras
palpebrais apresentam-se inclinadas
ínfero-lateralmente (obliqüidade antimongolóide).
Há coloboma no terço
externo da pálpebra inferior
em 75% dos casos e uma falha de
cilios na região mediai'ao coloboma
é encontrada em 50% dos pacientes.
Pode ocorrer também coloboma
de íris. Os orifícios dos condutos
lacrimáis inferiores podem
estar ausentes assim como as glândulas
de Meibomius.
Estudos radiológicos mostram
que as margens orbitais inferiores
podem ser anômalas. A cavidade
orbital, por sua vez, pode ter forma
ovalada, com o teto inclinado
ínfero-lateralmente.
Nariz. Parece grande, devido à
falta de desenvolvimento do osso
malar. As narinas, freqüentemente,
são estreitas e as cartilagens malares
hipoplásicas. O ângulo nasofrontal
costuma não ser nítido e a ponte
nasal é alta. A atresia de coana
já foi relatada na síndrome.
Orelhas. O pavilhão auricular é
freqüentemente deformado, com
excesso de pregueamento e pode
ter implantação baixa. Pode haver
microtia, isto é, grande diminuição
do tamanho da orelha. O conduto
auditivo externo apresenta-se estreitado
e em 30% dos afetados há agenesia
do mesmo ou defeitos da cadeia
de ossículos, acompanhadas
de surdez de condução. A surdez
total é rara. As anomalias dos ossículos
consistem em fixação do martelo,
fusão do martelo e do estribo
(que, além disso são malformados),
estribo monopodal, ausência
do estribo e da janela oval, ausência
completa do ouvido médio e
do espaço epitimpânico.
Apêndices auriculares e fístulas
em fundo cego podem ocorrer
em qualquer ponto entre o tragus
e a comissura oral.
Crânio. O calvário é essencialmente
normal, mas estudos radiológicos
nos afetados revelam cristas
supra-orbitárias pouco desenvolvidas
e com marcas de impressões
digitais, mesmo com suturas ósseas
normalmente relacionadas. O
corpo do osso malar pode estar totalmente
ausente. O mais freqüente,
porém, é o nosso malar ser grosseira
e simétricamente hipodesenvolvido.
As mastóides não são pneumatizadas
e costumam ser esclerosadas.
Os seios paranasais são, geralmente,
muito pequenos ou podem estar
ausentes.
Manifestações orais. A mandíbula
é hipoplásica na quase totalidade
dos casos. O ângulo da mandíbula
é mais obtuso que o normal e
os ramos da mesma podem ser hiperdesenvolvidos
ao estudo radiológico.
Os processos coronóide e condilóide
são achatados ou mesmo
aplásicos. A superfície inferior do
corpo da mandíbula é, geralmente,
muito cóncava.
A micrognatia é um achado freqüente
nos afetados. Outras manifestações
em -nível da cavidade
oral consistem em fenda palatina
em 30% dos casos, pálato ogival e
macrostomia uni ou bilateral. A
má oclusão dentária é freqüente
pela hipoplasia da mandíbula acrescida
de defeito no pálato (fendido,
alto ou arqueado). Os dentes podem
ser hipoplásicos e malposicionados.
Outras características facíais importantes
podem ser observadas
entre o pavilhão auricular e a comissura
oral. Sulcos faciais nessa
mesma região podem compor o aspecto
facial na síndrome além de
uma projeção apilosa que pode se
estender até a porção média da face.
Esta última característica é observada
em 25% dos.afetados.
Anormalidades ocasionais. Consistem
em: ausência da glândula parótida;
hipoplasia da faringe; coloboma
da pálpebra superior; microftalmia;
microstomia; cardiopatias
congênitas; malformações vertebrais
cervicais; criptorquidia. Atraso mental
e observado em 5 % dos afetados.
Etiología
A síndrome é de etiología genética,
de herança autossômica dominante
com grande penetrância(quase
100%) e expressividade muito variável.
Foram relatadas muitas famílias
com transmissão de afetados em diversas
gerações por vários autores
e em diferentes locais do mundo.
Mais de 50% dos casos surgem
como mutação nova, isto é, como
primeiro caso na família. Antes porém,
de diagnosticar um caso como
fruto de mutação nova, é necessário
examinar cuidadosamente os
membros de sua família buscando
especificamente os sinais mínimos
da síndrome. Na verdade, não é rãro
chegar-se ao diagnóstico de pai
(ou mãe) levemente afetado somente
após o nascirriento de uma criança
gravemente afetada.
O defeito básico na síndrome é
desconhecido. A maioria das estruturas
afetadas derivam do primeiro
arco, 'sulco ou bolsas branquiais.
A patogênese da síndrome foi discutida
do ponto de vista embriológico
por Poswillo7, Uma condição
autossômica recessiva análoga, observada
em coelhos, serviu como
modelo animal para investigações
dos mecanismos de desenvolvimento.
Diagnóstico
Na síndrome de Treacher Collins
o diagnóstico é clínico, baseado
nas características acima descritas.
Nos estudos radiológicos uma grande
variedade de achados pode ser
observada em nível do crânio, a saber:
desenvolvimento incompleto
de cristas supra-orbitárias, impressões
digitais aumentadas, hipoplasia
dos ossos malares com falta de fusão
dos arcos zigomáticos, mastóides
esclerosadas e com ausência
de pneumatização, esclerose do ouvido
médio (raramente do ouvido
interno) .com definição imperfeita
de suas ' estruturas, hipoplasia da
mandíbula, achatamento ou aplasia
da apófise coronóide e dos condilos
da mandíbula.
Diagnóstico diferencial
A síndrome de Treacher Collins
deve ser diferenciada da disostose
acrofacial ou síndrome de Nager
que afeta as extremidades superiores
além da face. Podem ser observados
agenesia ou hipoplasia dos
polegares, sinostose radiocubital,
agenesia ou hipoplasia do radio,
agenesia de um ou mais metacarpianos.
A síndrome de Nager é de herança
autossômica recessiva.
Outro diagnóstico diferencial importante
é a síndrome de Goldenhar
ou síndrome óculo-aurículovertebral.
Nesta, os afetados apresentam
microssomia hemifacial e
anomalias vertebrais. Há geralmente
coloboma de pálpebras superiores
e dermóides epipulbares como
anomalias oculares. Apêndices préauriculares
e atresia do canal auditivo
externo são também freqüentemente
observados nesta síndrome
cuja etiología mais aceita é de herança
multifatorial.
Tem ficado evidente que a disostose
mandíbulo-facial (sensu latú)
é, na verdade, um complexo sintomático
não específico que pode
ocorrer em diferentes condições,
sendo a mais comum, a síndrome
de Treacher Collins.
Diagnóstico pré-natal
O diagnóstico pré-natal por fetoscopia
foi realizado no segundo
trimestre em quatro gestações de
risco, na síndrome de Treacher Collins
(Nicolaides & Cois6). Foram observadas
anormalidades faciais em
dois dos fetos e o diagnóstico da
síndrome foi confirmado nos mesmos
após a interrupção gestacional.
Crane & Beaver1, em 1986, fizeram
o diagnóstico pré-natal da síndrome
através da ultra-sonografia.
Tratamento
Observa-se atraso mental em alguns
pacientes afetados pela síndrome.
Isto, porém, deve ser devido
a déficit auditivo importante. O reconhecimento
precoce da surdez
e sua correção com utilização de
prótese ou por cirurgia, quando
possível, é de grande importância
no desenvolvimento do afetado.
Alguns pacientes podem apresentar
problemas respiratórios precoces
por terem a passagem aérea estreitada.
Ocasionalmente, podem vir a
necessitar uma traqueostomia temporária.
O crescimento dos ossos da face,
na primeira infância e na préescola,
pode contribuir para certa
melhora cosmética nos afetados. A
cirurgia plástica pode melhorar
muito o aspecto da face e deve ser
considerada, assim como o tratamento
ortodôntico e o foniátrico.
A síndrome não é incomum e
crianças afetadas são encontradas
na maioria das escolas especiais para
surdos. O tempo médio de vida
do afetado não se altera, a menos
que coexistam malformações cardíacas
ou renais graves.
Summary
The autor discurs the clinical
manifestations, diagnoses and treatment
of the Treacher Collins Syndrome.
Referências
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Soe. V.K. 20:90,1900.
Aceito para publicação em
14 de março de 1991.
Endereço para correspondência
Instituto da Criança
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 647
São Paulo - SP
05403
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