O termo
porfiria deriva da palavra
grega πορφύρα,
porphura, significando "
pigmento roxo". O nome também aparenta ser uma referência à coloração arroxeada dos fluidos corporais dos pacientes durante um ataque.
[1]Embora as primeiras descrições da porfiria tenham sido atribuídas a
Hipócrates, a doença foi explicada bioquimicamente por Felix Hoppe-Seyler em 1874,
[2] e as porfirias agudas foram descritas pelo médico holandês B.J. Stokvis em 1889.
[3][1]
[editar]Cultura e história
A insanidade demonstrada pelo Rei
Jorge III do Reino Unido era resultado de uma porfiria. ("
Rei Jorge III do Reino Unido", tela por Allan Ramsay, 1762)
[editar]Vampiros e lobisomens
A porfiria é uma explicação utilizada para a origem dos mitos dos
vampiros e
lobisomens [4] [5] pelas similaridades entre a condição e o
folclore. A
porfiria cutânea tarda apresenta-se clinicamente como uma hipersensibilidade da pele à luz, levando à formação de lesões, cicatrização e desfiguração. A anemia, a pele clara e a sensibilidade à luz são características do mito do vampiro, enquanto que desfigurações em casos mais avançados, acompanhados de distúrbios mentais, poderiam ter levado ao mito do lobisomem. Há ainda relatos
anedóticos de canibalismo ou da ingestão de sangue por parte de portadores, que se beneficiariam da ingestão das enzimas.
[editar]Pacientes históricos
[editar]Sinais e sintomas
Existem dois principais tipos de manifestações clínicas características das porfirias, a aguda e a cutânea.
[editar]Porfiria aguda
As porfirias hepáticas com manifestações agudas afetam primariamente o
sistema nervoso central, resultando em
dor abdominal,
vômitos,
neuropatia aguda,
convulsões e distúrbios mentais, incluindo
alucinações,
depressão,
paranóia e
ansiedade. Se houver acometimento do
sistema nervoso autônomo, podem ocorrer
constipação, elevação ou queda da
pressão arterial,
taquicardia e outras
arritmias cardíacas. Em casos mais graves, pode ocorrer
distúrbio eletrolítico com
hiponatremia, paralisia do
bulbo cerebral com
parada respiratória e distúrbio psiquiátrico culminando em
suicídio. A fisiopatogenia provavelmente é por efeito tóxico dos precursores de porfirina, o ácido δ-aminolevulínico (ALA) e porfobilinogênio (PBG).
Os pacientes com porfirias hepáticas (PCT, AIP, HCP, VP) estão em risco aumentado de terem
carcinoma hepatocelular (câncer de fígado)
[8] e podem precisar de monitoramento. Outros fatores de risco típicos para o câncer de fígado não precisam estar presentes, como a
hepatite B ou
C,
excesso de ferro ou
cirrose de qualquer etiologia.
Devido aos diversos tipos e a ocorrência relativamente incomum de porfiria, geralmente a porfiria não é a primeira suspeita diagnóstica, o paciente pode inicialmente ser suspeito de ter outra doença não-relacionada. Por exemplo, a polineuropatia da porfiria aguda pode ser confundida com a
síndrome de Guillain-Barré, e os exames de porfiria são geralmente recomendados nestes casos.
[9] O
lúpus eritematoso também apresenta fotossensibilidade e ataques de dor, além de compartilhar diversos outros sintomas com a porfiria.
[10]. Entre os pacientes com diagnósticos de distúrbios psiquiátricos, a incidência de exames positivos para porfiria aguda intermitente chega a ser de 1 para cada 500 casos
[11], muito acima da média, o que sugere que muitos "pacientes psiquiátricos" são na realidade portadores de porfiria não tratada.
[editar]Porfiria cutânea
Em algumas formas de porfiria, o acúmulo de precursores do
heme excretados pela
urina podem mudar sua cor, após exposição ao sol, para um vermelho ou marrom escuros, ocasionalmente até um tom de púrpura. Também pode haver acúmulo dos precursores nos
dentes e
unhas, levando-os a adquirir uma coloração avermelhada.
[editar]Diagnóstico

Estrutura tridimensional da
hemoglobina. As quatro subunidades são mostradas em vermelho e amarelo, e o grupo
heme em verde.
A porfiria é
diagnosticada através de
espectroscopia (porfirinas têm um espectro característico de absorção) e exames
bioquímicos no
sangue,
urina e
fezes. De modo geral, a dosagem de porfobilinogênio (PBG) na urina é o primeiro passo na suspeita de porfiria aguda. Como resultado do
feedback, a produção reduzida de
heme leva a um aumento na concentração de precursores, sendo que o PBG é um dos primeiros na cadeia sintética da porfirina. Dessa maneira, sua concentração urinária está elevada em praticamente todos os casos de porfiria aguda, exceto na rara deficiência de ALA dehidratase e em pacientes com
saturnismo (intoxicação por chumbo) ou
tirosinemia hereditária tipo I.
Para detecter a porfiria, podem ser necessários repetidos exames durante um ataque e seus ataques subsequentes, já que os níveis podem estar normais ou próximos ao normal entre os ataques.
Como a maioria das porfirias são doenças raras, os laboratórios hospitalares em geral não possuem especialização, tecnologia ou tempo para seus funcionários realizarem o exame de porfiria. Em geral, os exames envolvem o envio de amostras de sangue, fezes e urina para um laboratório de referência. As amostras colhidas para detectar a porfiria devem ser manuseadas com cuidado, sendo protegidas da luz e refrigeradas. As amostras devem colhidas durante uma crise, caso contrário um resultado
falso negativo pode ocorrer.
[editar]Exames adicionais
Podem ser solicitados alguns exames para diagnóstico dos órgãos afetados, como os estudos da condução nervosa para neuropatias ou um
ultra-sonografia para o fígado. Exames bioquímicos básicos podem ajudar a identificar a doença no fígado,
carcinoma hepatocelular e outros problemas nos órgãos.
[editar]Patogênese e classificação
Nos
humanos, as
porfirinas são os principais precursores do
heme, um componente essencial da
hemoglobina (proteína presente nas células do sangue e que distribui o oxigênio para as partes do corpo),
mioglobina (proteína que carrega oxigênio nos músculos) e
citocromos (proteínas que fazem transporte de elétrons).
A síntese do
heme se dá em dois locais distintos da
célula e envolve oito
enzimas. Ela começa na
mitocôndria (com a primeira enzima atuando), prossegue no
citoplasma (com quatro enzimas atuando), e volta para a mitocôndria, onde é encerrada (com as três ultimas enzimas atuando).
As porfirias são causadas por deficiências funcionais ou quantitativas de qualquer uma das enzimas que participam do processo de síntese do heme. A síntese do heme prejudicada causa o acúmulo de um de seus precursores, as
porfirinas, que são tóxicas em altas concentrações nos tecidos. A produção diminuída de heme não é um grande problema, pois mesmo uma atividade enzimática pequena pode levar à produção de heme suficiente.
Características bioquímicas desses intermediários e o local de sua produção, determinarão em que tecido serão acumulados, se são
fotossensíveis e como serão excretados (na
urina ou nas
fezes).
[editar]Classificação e tipos

Estrutura do
heme b, componente dependente das
porfirinas em sua síntese.
Classicamente as porfirias eram classificadas de dois modos.
Uma classificação era de acordo com o local de acúmulo dos precursores do
heme, ou seja, no
fígado (porfirias hepáticas) ou no
sangue (porfirias eritropoiéticas):
Também eram classificadas de acordo com os principais sinais e sintomas:
- Porfirias agudas: causam sintomas neurológicos.
- Porfirias cutâneas: causam fotossensibilidade cutânea.
Estas antigas classificações de porfirias já foram bem estudadas e caracterizadas, o que as tornou obsoletas, apesar de úteis. Atualmente as porfirias são classificadas mais precisamente de acordo com suas deficiências enzimáticas específicas:
A
porfiria variegata (ou
porfiria mista), que ocorre devido a uma deficiência parcial na enzima
PROTO oxidase, manifesta-se através de lesões de
pele semelhantes às da
porfiria cutânea tarda combinadas com ataques neurológicos agudos. Os sintomas podem surgir na segunda década de vida. Há descrição de um grupo de portadores na
África do Sul descendentes de uma única pessoa portadora da mutação: Berrit Janisz, um
holandês que emigrou para lá no
século XVII.
[editar]Porfiria aguda
- Carboidratos e heme
Uma dieta rica em carboidratos é geralmente recomendada; em ataques severos, infusão de solução hipertônica de glicose (até de 50%) é iniciada, o que pode interromper a crise ou auxiliar na recuperação.
Hematina e
arginato de heme são as drogas escolhidas para porfíria aguda, nos
Estados Unidos e no
Reino Unido respectivamente. Estas drogas devem ser aplicadas bem no começo de um ataque, com eficácia dependendo do indivíduo e da demora para iniciar o tratamento. Não são drogas curativas mas podem reduzir o tempo e a intensidade dos ataques. Efeitos colaterais são raros mas podem ser sérios. Essas substâncias do tipo heme teoricamente inibem a enzima ALA sintetase por retroalimentação negativa, reduzindo portanto o acúmulo de precursores tóxicos. No Reino Unido, suprimentos dessa droga são mantidos em dois centros nacionais. Nos Estados Unidos, uma companhia fabrica Panematin para infusão. A
Fundação Americana de Porfiria tem informações sobre como encontrar a droga mais rapidamente.
- Fatores precipitantes
Se o ataque foi causado por drogas ou hormônios, a descontinuação do uso destas substâncias é essencial. A
infecção é uma das causas mais comuns de ataques e requer tratamento vigoroso.
- Controle dos sintomas
A dor é
extremamente severa, freqüentemente fora de proporção aos sinais físicos, e quase sempre requer o uso de
opiáceos para reduzi-la a níveis toleráveis. A dor deve ser tratada tão cedo quanto medicamente possível devido à sua severidade. As
náuseas podem ser severas; elas podem responder a medicamentos
fenotiazínicos mas às vezes não são tratáveis. Banho/imersão em água quente podem diminuir as náuseas temporariamente, embora dever ser tomados cuidados para evitar queimaduras e quedas.
- Identificação precoce
Pacientes com histórico de porfiria aguda são recomendados a usar um bracelete de alerta ou outra identificação o tempo inteiro para o caso de desenvolverem sintomas: já que talvez eles não possam explicar aos profissionais da saúde sobre sua condição e o fato de que algumas drogas são absolutamente contra-indicadas.
- Aspectos neurológicos e psiquiátricos
Pacientes que sofrem ataques freqüentes podem desenvolver dores neuropáticas crônicas nas extremidades bem como dor crônica no sistema digestivo. Provavelmente devido à deteriorização do nervo axonal nas áreas afetadas do sistema nervoso. Nesses casos, tratamento com opióides de longa duração podem ser indicados. Alguns casos de dor crônica podem ser difíceis de administrar e podem requerer tratamento usando modalidades múltiplas. Depressão geralmente acompanha a doença e é melhor lidar tratando os sintomas e se necessário com o uso prudente de anti-depressivos.
- Convulsões
Convulsões geralmente acompanham essa doença. A maioria dos remédios contra convulsão potencializam a condição. O tratamento pode ser problemático: barbitúricos devem ser evitados. Algumas benzodiazepinas são seguras, e, quando usadas em conjunto com recentes medicamentos anti-convulsão como gabapetina oferece um possível regime para o controle de convulsões.
- Doença do fígado não diagnosticada
Algumas doenças hepáticas podem causar porfiria mesmo na ausência de predisposição genética. Entre elas está a
hemocromatose e
hepatite C.
- Tratamento hormonal
[editar]Porfirias eritropoiéticas
As erupções de pele que ocorrem nas porfirias eritropoiéticas geralmente requerem o uso de
filtro solar e a evitação da luz solar. Pode-se utilizar
cloroquina para aumentar a secreção de porfirina em alguns casos de porfirias eritropoiéticas
[12]. A
transfusão de sangue é ocasionalmente usada para suprimir a produção de heme pelo indivíduo.
[editar]Referências
- ↑ a b Lane, N. Born to the purple: the story of porphyria Scientific American Fulltext.
- ↑ Hoppe-Seyler F. Das Hämatin. Tubinger Med-Chem Untersuch 1871;4:523–33
- ↑ Stokvis BJ. Over twee zeldzame kleurstoffen in urine van zieken. Nederl Tijdschr Geneeskd 1889;2:409-417.
- ↑ Sidky, H. Witchcraft, Lycanthropy, Drugs, and Disease: An Anthropological Study of the European Witch-Hunts. New York: Peter Lang Publishing, Inc. 1997
- ↑ Adams C. Did vampires suffer from the disease porphyria--or not? The Straight Dope 7 May 1999 Article
- ↑ Loftus LS, Arnold WN. Vincent van Gogh's illness: acute intermittent porphyria? BMJ 1991;303:1589-91. PMID 1773180.
- ↑ Porfiria muda a biografia de Aleijadinho - Folha de São Paulo, 30 de setembro de 1998
- ↑ Onuki J, Teixeira PC, Medeiros, MHG et al. DNA damage induced by 5-aminolevulinic acid: a possible association with the development of hepatocellular carcinoma in acute intermittent porphyria patients. Quím. Nova 2002, vol. 25, no. 4 [cited 2007-04-26], pp. 594-608.
- ↑ Albers JW, Fink JK. Porphyric neuropathy. Muscle Nerve 2004;30:410-22. PMID 15372536.
- ↑ Roelandts R. The diagnosis of photosensitivity. Arch Dermatol 2000;136:1152-7. PMID 10987875.
- ↑ Tishler PV, Woodward B, O'Connor J, Holbrook DA, Seidman LJ, Hallett M, Knighton DJ (1985) High prevalence of intermittent acute porphyria in a psychiatric patient population. Am J Psychiatry 142:1430-6
- ↑ Thadani H, Deacon A, Peters T. Diagnosis and management of porphyria. BMJ 2000;320:1647-51. Fulltext. PMID 10856069
[editar]Bibliografia adicional
- Anderson KE, Bloomer JR, Bonkovsky HL, Kushner JP, Pierach CA, Pimstone NR, Desnick RJ. Recommendations for the diagnosis and treatment of the acute porphyrias.Ann Intern Med 2005;142:439-50. PMID 15767622.
- Kauppinen R. Porphyrias. Lancet 2005;365:241-52. PMID 15652607.
[editar]Ligações externas